Dicas e Artigos

**Artigo: “Pegue Leve nas Broncas” (Revista Na Mochila – Fev.2011)

Cuidado com as frases que usa para chamar a atenção do seu filho

Na hora do nervoso, da raiva, nem sempre é fácil controlar as palavras. Bradamos aos quatro ventos nossa indignação, muitas vezes usando frases feitas e de grande carga negativa. Já reparou quantas vezes isso acontece dentro de casa? Pois é, quando precisamos dar bronca nas crianças, geralmente apelamos para expressões impactantes: “você não faz nada direito!”; “você é um preguiçoso mesmo. Desse jeito, não vai ser nada na vida!”. Elas soam como meras explosões de fúria ou podem acarretar consequências no desenvolvimento dos pequenos?

Para a psicóloga Aurea Ferreira, os pais precisam ser cautelosos na maneira como falam com os filhos. “Quando os pais verbalizam para os filhos que eles não sabem fazer nada direito, as crianças podem crescer com esses conceitos, essas regras. Dessa forma, há a possibilidade de elas não se sentirem capazes, quando adultas, por exemplo, de desenvolver um projeto bacana em seu trabalho, não sentirem confiança no que fazem e nos resultados”, exemplifica.

Esse tipo de agressão verbal é muito mais comum do que imaginamos. Mesmo pais zelosos e carinhosos podem deixar escapar, num momento de nervosismo, frases comprometedoras. “Muitas vezes, o estresse do dia a dia, a falta de tempo, a falta de ‘prática’, a cobrança que os pais fazem a si mesmos na busca de serem os mais adequados podem acabar gerando um aumento da autocobrança. Em momentos estressantes é mais fácil apresentar esses comportamentos”, comenta a psicóloga.
Quando isso acontecer, o ideal é se retratar com o pequeno. “Assim que perceberem o erro, os pais podem conversar com a criança e esclarecer o que houve”, orienta Aurea.

Regras e afins

Então, os pais não podem dar bronca nos filhos quando eles estão errados? Muito se questiona a esse respeito, já que as gerações passadas foram criadas com muita repressão, palmadas e castigos.

A questão é o tipo de educação que queremos dar aos nossos filhos. Ao dizer frases ofensivas – que, cá entre nós, não diríamos nem mesmo àquela pessoa chata que vive nos perturbando – estamos ofendendo e muitas vezes comprometendo a autoestima das crianças. “Como exigir que o filho seja educado se os pais não o são?”, indaga a psicóloga.

Estamos lidando atualmente com uma geração de crianças questionadoras e cientes de seu papel no mundo. Diferentemente do que acontecia na época de nossos avós, hoje os pequenos têm uma relação mais próxima com seus pais e exigem tratamento de igual para igual, sem distinção de hierarquia. Ao ouvirem ofensas, podem não entender que por trás das palavras duras existe apenas a intenção de educar.

Chamar o filho de burro, molenga ou “um zero à esquerda” não vai ajudá-lo a avaliar onde está errando. “Isso pode estabelecer para a criança padrões errados de autopercepção e, consequentemente, ter reflexo em seu futuro”, ressalta Aurea.

O ideal é ser direto e objetivo. “As mensagens devem ser claras, sempre explicando o porquê das coisas, das regras, dos nãos, assim o pequeno cresce em um ambiente seguro. Quando isso não acontece, a linguagem fica no ar, permite à criança imaginar, supor uma infinidade de consequências. Essa sensação de ‘fumaça’ pode gerar sentimentos de insegurança, ansiedade, instabilidade, já que esta não sabe claramente o que irá acontecer se tiver um ou outro comportamento.”

Por exemplo: se você estabelecer que seu filho precisa fazer a lição de casa antes de brincar, essa regra precisa ser cumprida, de forma que a criança sinta-se segura e consciente dos resultados. Quando ela quebra uma norma previamente estabelecida e não tem a punição – como não fazer a lição e ir brincar mesmo assim – passa a não respeitar as ordens da casa e dos pais.

10 frases que não se deve dizer ao filho:

“Seu molenga, você cai toda hora”.
“Você é um preguiçoso, mesmo. Não vai ser nada na vida!”
“Vou te dar uma surra”.
“Você não me obedece; nunca mais vou falar com você.”
“Se não me obedecer vai ficar um mês sem computador.”
“Você está comendo como um porco.”
“Já falei mais de mil vezes.”
“Se mexer aí o policial vai te prender”
“Se não tomar remédio, o médico vai te dar uma injeção.”
“Por que você não faz como seu irmão, que é tão obediente?”

“As regras são importantes para as crianças, pois são o alicerce de um ambiente seguro, confiante. Elas não precisam ser vistas como punitivas, podem ser vistas como demonstração de amor e de preocupação”, Aurea Ferreira
Use mensagens claras, sempre explicando o porquê das coisas, das regras, dos nãos. Assim a criança cresce em um ambiente seguro.

Fonte: Revista NA Mochila
Aurea Ferreira, psicóloga clínica com Especialização em Terapia Comportamental Cognitiva pela Universidade de São Paulo – USP
Por Rose Araujo

**Artigo: “Mamãe eu to com medo (CidadãoNews – Publicado em 19/04/2011)

Eles ainda se assustam?

Em pleno século 21, será que as crianças ainda têm medo de seres imaginários como bicho-papão e o homem do saco
Por Felipe C. Santos

De repente um grito! Ela acorda assustada, salta da cama e, correndo, vai em direção ao quarto adjunto:

- Mamãe, mamãe, um monstro…

A mãe pega o filho no colo e retorna ao quarto. Mas, assustado, ele insiste:

- Deixe a luz acesa mamãe.

Qual mãe nunca passou por algo parecido? Qual pai não acordou com dores nas costas ou pescoço por ter dormido espremido no canto da cama para dar espaço ao filho assustado? É o que o medo pode causar em todos na casa quando os monstros imaginários estão à solta.

Bicho-papão, fada do dente, bruxas, lobos, monstros, mitos que surgiram para, de alguma forma, amedrontar, divertir e controlar as crianças. Eles estão por toda a parte, em desenhos, filmes, personagens em quadrinhos, livros, tudo o que alimenta o mundo imaginário e fictício infantil. Desde a bruxa da “Branca de Neve” e o lobo mau da “Chapeuzinho Vermelho” até o divertido monstro do armário da animação “Monstros S.A.”, esses monstros vêm alimentando o mundo paralelo em que as crianças vivem.

Para fortalecer a ideia da criatura assustadora, os pais utilizam técnicas para poder controlar os filhos de uma forma, aparentemente, mais fácil. Quem já não ouviu, ‘se você fizer isso o monstro vai te pegar’, ou, ‘se você for para lá o homem do saco vai te levar embora’. Imagine o que isso pode causar numa mente em desenvolvimento em que a imaginação está no ápice de sua forma.

“Por volta dos três anos de idade, as crianças começam a aprender regras, se os pais utilizarem o “homem do saco” para fazer os filhos obedecerem ordens, o resultado vai ser medo e não respeito”, diz a psicóloga e psicoterapeuta Dra. Aurea Ferreira, especialista em psicologia comportamental cognitiva pela Universidade de São Paulo e membro do Instituto de Saúde Cognitiva Aplicada (INSCA).

Mas será que as crianças, em plena era digital, onde o brinquedo eletrônico substituiu o peão de barbante, os personagens de desenhos substituíram o clássico carrinho, a tradicional boneca fora trocada pelo telefone celular, ainda têm medo desses monstros imaginários?

Ferreira diz que nas grandes cidades o mais comum são as crianças sentirem medo da realidade que a televisão transmite, como assaltos e sequestros, ao invés dos mitos infantis.

Fernanda Roberti de Figueiredo, professora da Escola Infantil Ursinho Carinhoso, no bairro de Santa Terezinha, afirma que as crianças de até três anos de idade ainda têm medo dessas e, outras crenças de monstros. “Principalmente quando a gente conta histórias, explicamos que é somente um conto, que existe a bruxa boa e a má”, revela Figueiredo.

Ela fala sobre um caso em que contava uma história aos pequenos alunos. Ao narrar um trecho de impacto, assustou uma das crianças. No dia seguinte, a mãe da criança ligou na escola pedindo explicações a Figueiredo. Ela disse o que aconteceu e o caso foi resolvido, mas ressalva: “Nós começamos a mudar a história contada depois da reação das crianças”.

Há também o temor de personagens conhecidos e amados por todos. Algumas crianças pequenas têm medo de papai-noel, coelho do ovo da páscoa e palhaços. “Temos de mostrar que é uma coisa boa para a criança”. “Quanto mais falamos que é uma coisa do mal, mais a criança vai ter medo”, disse a professora.

Ferreira ressalta que nesses casos é preciso ser feito o enfrentamento gradual. “Aos poucos, os pais conversam com os filhos e, juntos, tentam uma aproximação com o personagem temido pela criança, seja papai-noel ou palhaços”. Ainda segundo a psicóloga, normalmente os pais criticam os filhos quando o ideal é conversar com a criança, compreender o medo e os motivos que a levaram a este estado de insegurança, compartilhar experiências e ajudá-la a enfrentar esses temores.

As escolas também podem ajudar com o problema no auxílio aos pais para a identificação do medo dos filhos e trabalhar o enfrentamento nas crianças. Mas se a situação não melhorar, o ideal é procurar ajuda profissional. Consulte um psicólogo infantil e nunca use remédios sem a ajuda de um especialista.